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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Crônica: Aprenda a chamar a polícia.

 A crônica que você vai ler foi escrita por Luís Fernando Veríssimo. Em nossa biblioteca temos livros desse escritor renomado, não deixem de ler o livro Comédias para se ler na escola.

Comédias para Se Ler na Escola - Saraiva


 APRENDA A CHAMAR A POLÍCIA

Luís Fernando Veríssimo

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranquilamente.

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.

Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.
Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:

— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate,  uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:

— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:

— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

 

https://www.refletirpararefletir.com.br/4-cronicas-de-luis-fernando-verissimo


Lenda: A alma e o coração da baleia.

 

A lenda que você vai ler foi escrita por Neil Philip, um especialista em folclore e mitologia, essa lenda encontra-se no livro Volta ao mundo em 52 histórias.


A alma e o coração da baleia

                    Neil Philip

 

        Era uma vez um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar. Exatamente de tanto bater as asas, procurou um lugar para descansar, mas não avistou nenhum pedaço de terra no meio de toda aquela água.

        -- Vou morrer afogado! – Suspirou, já sem forças para continuar voando.

        Nesse exato momento, uma enorme baleia subiu à tona, e o corvo, sem pensar duas vezes, mergulhou naquela bocarra aberta.

        Foi parar na barriga da baleia, onde, para seu espanto, deparou-se com uma casa muito limpa e confortável, bem iluminada e quentinha.

        Uma jovem estava sentada na cama, segurando uma vela acesa. 

        -- Fique à vontade, – disse ela amavelmente – mas, por favor, nunca toque em minha vela.

        O corvo, feliz da vida, prometeu que jamais faria tal coisa.

        A moça parecia inquieta. A todo instante se levantava, ia até a porta e voltava a sentar na cama. 

        -- Algum problema? O corvo perguntou. 

        -- Não...”, ela respondeu. 

        -- É só a vida... A vida e o ar que se respira.

        O corvo estava morrendo de curiosidade. Assim quando a jovem foi até a porta, resolveu tocar na vela para ver o que acontecia. E aconteceu que a moça caiu estatelada na sua frente e a luz se apagou.

        O mal estava feito. A casa ficou fria e escura, o cheiro de gordura e sangue deixou o corvo enjoado. Inutilmente ele procurou a porta par sair dali e, cada vez mais nervoso, começou a se coçar de tal modo que arrancou todas as penas. 

        -- Agora é que vou morrer congelado, – choramingou corvo, tremendo até os ossos.

        A moça era a alma da baleia, que a movimentava para a porta toda vez que enchia os pulmões de ar. 

        Seu coração era a vela acesa. Quando o corvo a tocou, a chama se extinguiu. Agora a baleia estava morta e guardava em seu interior o pássaro intrometido.

        Depois de muito chorar e pensar, o corvo finalmente conseguiu sair das escuras entranhas e sentou no dorso daquele imenso defunto. Ensebado, sujo, depenado, era uma tristíssima figura.

        A baleia morta ficou flutuando no mar até que desabou uma tempestade e as ondas a empurraram para a praia. Quando a chuva parou, alguns pescadores saíram para trabalhar e viram a baleia. O corvo também os viu e se transformou num homenzinho feio e estropiado. Então, em vez de confessar que se intrometera onde não fora chamado e destruíra algo de belo que não conseguia compreender, pôs-se a gritar: 

        -- Eu matei a baleia! Matei a baleia!

        E foi dessa forma se tornou um grande homem.


  Neil Philip. Volta ao mundo em 52 histórias. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.