Veja a seguir os trabalhos produzidos pelas sétimas séries (2012) para a seguinte proposta:
Imagine que você foi convidado para ilustrar o conto "O coração denunciador" de Edgar Allan Poe - o mestre do suspense! - e faça sua proposta.
Este conto faz parte do livro Histórias Extraordinárias.
Procure-o em nossas estantes.
Leia agora o conto e veja o trabalho de nossos ilustradores.
O
CORAÇÃO DENUNCIADOR
Edgar Allan Poe
É verdade. Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso,
terrivelmente nervoso. Mas, por que ireis dizer que sou louco? A enfermidade me
aguçou os sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. Era penetrante, acima
de tudo, o sentido da audição. Eu ouvia todas as coisas, no céu e na terra.
Muitas coisas do inferno eu ouvia. Como, então, sou louco? Prestai atenção. E
observai quão lucidamente, quão calmamente vos posso contar toda a história.
É impossível dizer como a ideia me penetrou primeiro no cérebro; uma vez
concebida, porém, ela me perseguiu dia e noite. Não havia motivo. Não havia
cólera. Eu gostava do velho. Ele nunca me fizera mal. Nunca me insultara. Eu
não desejava seu ouro. Penso que era o olhar dele. Sim, era isso. Um de seus
olhos se parecia com o de um abutre.... um olho de cor azul pálida, que sofria
de catarata. Meu sangue se enregelava, sempre que ele caía sobre mim; e assim,
a pouco e pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar a vida do velho e
desse modo libertar-me daquele olho para sempre.
Ora, aí é que está o problema. Imaginais que sou louco. Os loucos nada sabem.
Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveríeis ter visto como precedi cautamente,
com que prudência, com que previsão, com que dissimulação, lancei mãos à obra.

Eu nunca fora mais bondoso para com o velho que durante a semana inteira, antes
de matá-lo. E todas as noites, por volta da meia-noite, eu girava o trinco da
porta de seu quarto e abria... oh! bem devagarinho. E depois, quando a abertura
era suficiente para conter minha cabeça, eu introduzia uma lanterna com tampa,
toda velada, bem velada, de modo que nenhuma luz se projetasse para fora, e, em
seguida, enfiava a cabeça. Oh! teríeis rido ao ver como a enfiava habilmente.
Movia-a lentamente, muito, muito lentamente, a fim de não perturbar o sono do
velho. Levava uma hora para colocar a cabeça inteira além da abertura, até
poder vê-lo deitado na cama. Ah! um louco seria precavido assim? E depois,
quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna
cautelosamente... oh! bem cautelosamente!... cautelosamente... porque a
dobradiça rangia... abria-a só até permitir que apenas um débil raio de luz
caísse sobre o olho de abutre. E isto eu fiz durante sete longas noites...
sempre precisamente à meia-noite... e sempre encontrei o olho fechado. Assim,
era impossível fazer a minha tarefa, porque não era o velho que me perturbava,
mas o seu olho diabólico. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu penetrava
atrevidamente no quarto e falava-lhe sem temor, chamando-o pelo nome com
ternura e perguntando como havia passado a noite. Por aí vedes que ele
precisaria ser um velho muito perspicaz, para suspeitar que todas as noites,
justamente à meia-noite, eu o espreitava, enquanto dormia.

Na oitava noite, fui mais cauteloso que de hábito, ao abrir a porta. O ponteiro
dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente que meus dedos. Jamais,
antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de
minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que
ali estava eu, a abrir a porta, pouco a pouco, e que ele nem sequer sonhava com
os meus atos ou pensamentos secretos... Ri com gosto, entre os dentes, a essa
ideia... e talvez ele me tivesse ouvido, porque se moveu de súbito na cama,
como se assustado. Pensai talvez que recuei? Não! O quarto dele estava escuro
como piche, espesso de sombra, pois os postigos se achavam hermeticamente
fechados, por medo aos ladrões. E eu sabia, assim, que ele não podia ver a
abertura da porta. Continuei a avançar. Cada vez mais. Cada vez mais.
Já estava com a cabeça dentro do quarto a ponto de abrir a lanterna, quando meu
polegar deslizou sobre o fecho de lata e o velho saltou da cama, gritando:
"Quem está aí?"
Fiquei completamente silencioso e nada disse. Durante uma hora inteira, não
movi um músculo. E, por todo esse tempo, não o ouvi deitar-se de novo. Ele
ainda estava sentado na cama à escuta. Justamente como eu fizera, noite após
noite, ouvindo a ronda da morte próxima.
Depois, ouvi um leve gemido e notei que era o gemido do terror mortal. Não era
um gemido de dor ou de pesar, oh, não. Era o som grave e sufocado que se ergue
do fundo da alma, quando sobrecarregada de medo. Bem conhecia esse som. Muitas noites,
ao soar a meia-noite, quando o mundo inteiro dormia, ele irrompia do meu
próprio peito, aguçando com seu eco espantoso, os terrores que me aturdiam.
Disse que bem o conhecia. Conheci também o que o velho sentia e tive pena dele,
embora abafasse um riso no coração. Eu sabia que ele ficara acordado desde o
primeiro leve rumor, quando se voltara para a cama. Daí por diante, seus
temores foram crescendo. Tentara imaginá-los sem motivo, mas não fora possível.
Dissera a si mesmo: "é só o vento na chaminé", ou "é só um rato
andando pelo chão", ouvi apenas um grito que trilou um instante só. Sim,
ele estivera tentando animar-se com essas suposições, mas tudo fora em vão.
Tudo em vão, porque a morte, ao aproximar-se dele, projetara sua sombra negra
para a frente, envolvendo nela a vítima. E era a influência tétrica dessa
sombra não percebida que o levava a sentir - embora não visse nem ouvisse - a
sentir a presença de minha cabeça, dentro do quarto.
Depois de esperar longo tempo, com muita paciência, sem ouvi-lo
deitar-se, resolvi abrir um pouco, muito, muito pouco a tampa da lanterna.
Abri-a, podeis imaginar quão furtivamente, até que, por fim, um raio de luz
apenas, tênue como o fio de uma teia de aranha, passou pela fenda e caiu sobre
o olho de abutre.
Ele estava aberto. Todo, plenamente aberto. E, ao contemplá-lo, minha fúria
cresceu. Vi-o com perfeita clareza. Todo de azul desbotado, com uma horrível
película a cobri-lo, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia
ver nada mais da face, ou do corpo do velho, pois dirigira a luz, como por
instinto, sobre o maldito lugar.
Ora, não vos disse que apenas é super-acuidade dos sentidos, aquilo que
erradamente julgais loucura? Repito, pois, que chegou a meus ouvidos, um som
baixo, monótono, rápido como o de um relógio, quando abafado em algodão.
Igualmente eu bem sabia que som era aquele. Era o bater do coração do velho.
Ele me aumentava a fúria, como o bater de um tambor estimula a coragem do
soldado.
Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter tão fixamente quanto
pude a réstea de luz sobre o olho do velho. Entretanto, o infernal tan-tan do
coração aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido, mais alto,
mais rápido. O terror do velho deve ter sido extremo. Cada vez mais alto,
repito, a cada momento. Prestai-me bem atenção? Disse-vos que sou nervoso:
sou-o. E então, àquela hora morta da noite, tão estranho ruído excitou em mim
um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei
quieto. Mas o bater era cada vez mais alto. Julguei que o coração ia rebentar.
E, depois, nova angústia me aferrou: o rumor poderia ser ouvido por um vizinho.
A hora do velho tinha chegado. Com um alto berro, escancarei a lanterna e pulei
para dentro do quarto. Ele guinchou mais uma vez... uma vez só. Num instante,
arrastei-o para o soalho e virei a pesada cama sobre ele. Então sorri
alegremente, por ver a façanha realizada. Mas, durante muitos minutos, o
coração continuou a bater, com som cavo e surdo. Isto, porém, não me vexava.
Não seria ouvido através da parede. Afinal, cessou. O velho estava morto.
Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, era uma pedra, uma pedra morta.
Coloquei minha mão sobre o coração e ali a mantive durante muitos minutos. Não
havia pulsação. Estava petrificado. Seu olho não mais me perturbaria.
Se ainda pensais que sou louco, não mais o pensareis, quando eu descrever as
sabias precauções que tomei, para ocultar o cadáver. A noite avançava e eu
trabalhava apressadamente, porém, em silêncio. Em primeiro lugar, esquartejei o corpo.
Cortei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
Arranquei depois três pranchas do soalho do quarto e coloquei
tudo entre os vãos. Depois recoloquei as tabuas, com tamanha habilidade e
perfeição, que nenhum olhar humano, nem mesmo o dele, poderia distinguir
qualquer coisa suspeita. Nada havia a lavar, nem mancha de espécie alguma, nem
marca de sangue. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma tina tinha recolhido
tudo... ah! ah! ah!
Terminadas todas estas tarefas, eram já quatro horas. Mas ainda estava escuro,
como se fosse meia-noite. Quando o sino soou a hora, bateram à porta da rua.
Desci a abri-la, de coração ligeiro... pois que tinha eu agora a temer?
Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita mansidão, como soldados
da polícia. Fora ouvido um grito por um vizinho, durante a noite. Despertara-se
a suspeita de um crime. Tinha-se formulado uma denúncia à polícia e eles,
soldados, tinham sido mandados para investigar.
Sorri... pois que tinha eu a temer? Dei as boas vindas aos cavalheiros. O
grito, disse eu, fora meu mesmo, em sonhos. O velho, relatei, estava ausente,
no interior. Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi-lhes que
dessem uma busca... completa. Conduzi-os, afinal, ao quarto dele. Mostrei-lhes
suas riquezas, em segurança, intactas. No entusiasmo de minha confiança, trouxe
cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para
descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia de meu
perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira, precisamente sobre o lugar
onde repousava o cadáver da vítima.
Os soldados ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam convencido.
Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia
cordialmente, conversaram coisas familiares. Mas, dentro em pouco, senti que ia
empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça doía e parecia-me
ouvir zumbidos nos ouvidos. Eles, porém, continuavam sentados e continuavam a
conversar. O zumbido tornou-se mais distinto. Continuou e tornou-se ainda mais
distinto. Eu falava com mais desenfreio, para dominar a situação. Ela, porém,
continuava e aumentava sua perceptibilidade, até que, afinal, descobri que o
barulho não era dentro de meus ouvidos.
É claro que, então, a minha palidez aumentou sobremaneira. Mas eu falava ainda
mais fluentemente e em tom de voz muito elevado. Não obstante, o som se
avolumava... E que podia eu fazer? Era um som grave, monótono, rápido... muito
semelhante ao de um relógio envolto em algodão. Respirava com dificuldade... E,
no entanto, os soldados não o ouviam. Falei mais depressa ainda, com mais
veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a
respeito de ninharias, em tom bastante elevado e com violenta gesticulação, mas
o som constantemente aumentava. Oh! Deus! Que poderia eu fazer? Espumei. Enraiveci-me...
Praguejei. Fiz girar a cadeira, sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a
sobre as tabuas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente
aumentava. Tornou-se mais alto... mais alto... mais alto. E os homens
continuavam ainda a passear, satisfeitos, e sorriam. Seria possível que eles
não ouvissem? Deus Todo Poderoso!... não, não! Eles suspeitavam!... Eles
sabiam!... Estavam zombando do meu horror!...
Isto pensava eu e ainda penso.
Outra coisa qualquer porém, era melhor que essa agonia. Qualquer coisa era mais
tolerável que essa irrisão. Sentia que devia gritar ou morrer!... E agora... de
novo!... escutai... mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!...