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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013



UMA PONTE ENTRE DOIS REINOS 

No dia em que a menina nasceu, a mãe mandou afiar a tesoura.
Cabelo comprido dá muito trabalho, - disse.
E na primeira noite de lua nova, um a um, cortou-lhe todos os cachos.
A partir de então, sempre que a noite trancava a lua em sua boca escura, a mãe tosquiava o tanto que havia crescido. Nem adiantava o choro da menina pedindo tranças.
- É para dar força – resmungava a mãe entre fechar de lâminas.
Passados os anos, porém, percebeu que cada vez mais difícil se fazia sua tarefa. Cega a tesoura, lutava duramente para podar a brotação de mechas. Que logo perdeu o corte e a resistência. Em vão tentou faca, facão, machado. Nada mais parecia capaz de conter aqueles fios brilhantes como aço.
E a noite chegou em que, negro o céu, os cabelos da moça puderam enfim crescer livremente. E crescer. E crescer. Batendo nos ombros. Descendo pelas costas. Passando pela cintura. Tocando o chão. E no chão se arrastando como manto.
Só ela podia tirar fios dos seus cabelos. Escolhia um bem bonito, com os dedos seguia seu caminho até a raiz. E delicadamente o colhia, como a uma flor. Mas a cada fio colhido emanava da cabeça uma gota de sangue, vermelho brilhante que ia rolando pelos cabelos, enrijecendo-se em transparências, até chegar no chão precioso rubi.
Vendo a riqueza cair a seus pés, a velha não se cansava de pedir fios e mais fios.
Chorosa, falava que a roupa fugia ao vento, sujava-se sem ter onde secar. E a filha, compreensiva, escolhia o mais forte dos fios, para estendê-lo em varal, prendendo as brancas asas dos lençóis.
Lamentosa, reclamava da velhice: tão surda estava que já não ouvia o canto da cotovia ao amanhecer. Talvez se a tivesse mais perto... E a filha, compreensiva, descobria o mais flexível dos fios para trançá-lo em viveiro e aprisionar o pássaro da manhã.
Queixosa, afirmava que, sem ter onde crescer, a glicínia na certa morreria. E a filha, concessiva extraía o mais comprido dos fios, e com ele armava a pérgula em que a glicínia deitaria suas flores.
Fio após fio, rolavam os rubis, que a velha rapidamente escondia em seus bolsos. Fio após fio, espalhava-se a fama daqueles cabelos, que pessoas vinham de longe para admirar. Fio após fio, a fala da moça única acabou chegando ao palácio, onde o rei, há muito desejoso de estender uma ponte até o reino vizinho, pediu que a trouxessem até ele.
- Pode ir – disse a mãe à filha quando os mensageiros reais chegaram à sua casa – mas não tire um único fio longe de mim.
E estando afinal a moça parada diante do trino, extasiou-se a corte com a cachoeira de cabelos que ondulava ao menor movimento, escorrendo atrás dela pelas salas. Extasiou-se ainda mais o rei, logo pedindo alguns fios para unir os dois penhascos sobre o rio.
- Amanhã vos darei – respondeu ela numa mesura.
De volta ao seu quarto, colheu sem hesitar o primeiro fio, que emendou no segundo, que no terceiro emendou. E pela porta foi empurrando aquele cabelo mais que corda, aquele foi mais que cabo, serpente atravessando a soleira, seguindo pela rua, cruzando a praça, passando por fontes e jardins, até chegar ao portão do palácio.
Nada antes havia sido visto de tão resistente. Nada antes havia sido obtido de tão longo. E naquele mesmo dia tiveram início os trabalhos da ponte.
Nos bolsos da velha, mais três rubis haviam ido se juntar ao tesouro já acumulado. Passado algum tempo, e estando pronta a ponte, novamente o rei mandou chamar a jovem. Iriam até o penhasco, atravessar pela primeira vez para o outro reino.
- Pode ir – disse a mãe quando os mensageiros reais chegaram à sua casa -, mas só se for atrás de mim.
E empavonada saiu rumo ao palácio, seguida pela filha.
 Em festa reuniu-se a corte. Que rodeada pelo povo, entre cantos e danças chegou finalmente ao penhasco, e de lá, agitando braços e estandartes, saudou a corte vizinha, do outro lado.
 Já o rei avançava para dar os primeiros paços sobra a ponte, quando a velha se adiantou roubando-lhe o caminho.
- Serei eu a primeira, mãe dessa filha tão preciosa!
E sem esperara seguiu sobre o vazio.
Mas seus passos são duros para a ponte tão delgada que balança ao vento, e pesam demais os rubis amontoados nos seus bolsos. Súbito, o pé resvala, pende o corpo, a mão sem força não encontra apoio, e, perdida toda altivez, a velha despenca em direção ao rio, enquanto no escuro da roupa as pedras de sangue tilintam umas contra as outras.
Debruça-se a corte na beira do penhasco. Debruça-se a corte vizinha que espera do outro lado. Lá embaixo nada aparece. Na garganta escarpada a água corre verde, profunda, sem espumas.
Acima respira o vento da tarde roçando as costas nos fios estendidos. Breve será noite. Então o rei oferece sua mão. E apoiando-se nela de leve a moça avança pela noite, unindo os dois reinos, sob aplausos das cortes.

Marina Colasanti



8 comentários:

  1. Esse conto foi muito 10! Gostei muito!

    Ass:Suliany Izaias.7ab

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  2. Legal esse conto foi muito bacana!!Gostei bastante!

    Ass:Larissa Bilski.7C

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  3. Bem legal esse conto!!Gostei bastante!!

    Ass:Larissa Bialski.7C

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  4. Eu gostei muito desse conto, parabéns pro autor desse conto nota 10!!!! By:Gabriel de Castro Marreiro

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  5. Isso e uma obra de arte em letras!


    Lucas!!!

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  6. Parabéns gostei muito , mais ainda tem que melhorar um pouco mais, estão de parabéns!!!!



    Isabela Larissa

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  7. eu adorei muito essa historia tem muitas palavras linda muitas coisas emocionantes muito criativo muito legal mesmo então espero que quem reler essa historia goste porque ela e muito legal mesmo meu nome e Mara estudo na 7G.

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  8. uma ponte entre dois reinos foi a historia que eu li tem muitas coisas legal etc. espero que gostem Mara7G

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